Nos últimos tempos aconteceram-me dois episódios que me puseram a pensar nisto: um, um aperitivo com alguns professores da Universidade de Notre Dame, em Roma, em que um deles dizia “Podemos ter melhores computadores, mas não acho que tenhamos melhor arquitectura”. Outro, o fim-de-semana em Veneza em que este moço se pôs a testar frente a frente um mac e um pc.
1 • Computadores vs Canetas • A frase do senhor é inteligente, mas muito parcial. Eu, como escravo, prefiro arrastar linhas no Autocad que estar debruçado sobre o estirador. Nem sequer é uma questão de poupar tempo (acho que no fim de contas não se poupa grande coisa, a não ser que se trabalhe de um modo muito organizado), mas sim de poupar tempo a fazer fregnacce, coisas estúpidas como fazer as matrizes a lápis (já lá vão uns anos!) para depois passar a tinta, para depois passar a lâmina e emendar o que se errou e repetir o processo. Um desenho à mão tem mais expressão e sempre o terá, pelo menos em teoria, tal como um vinil tem sempre melhor som que um CD, em teoria. Mas na prática qual é a vantagem de dar uma expressividade maravilhosa a desenhos que vão ser vistos na obra? Depois pode-se sempre ter alguns desenhos feitos à mão (i.e. passados a tinta, com aguarelas, etc) se se quiser publicar e ter a melhor qualidade possível, mas parece-me que hoje em dia organizar o trabalho como há trinta anos atrás não tem lógica nenhuma, sobretudo quando quem tem que o executar, nós escravos, são pessoas para quem o computador é uma terceira mão.
2 • Mac vs PC • Aqui é que a porca torce o rabo. Eu uso, desde que arrumámos o Spectrum, computadores Macintosh, onde aliás escrevo este texto. São lindos e perfeitos, elegantes tanto por fora como no sistema operativo. Mas há pouco tempo descobri também que não só são lentos, como se estão a tornar cada vez mais inflexíveis e ditatoriais. Com os sistemas antigos (até ao 9) podia-se organizar ou desorganizar tudo como se quisesse, adicionar fontes, aplicações, etc sem grandes preocupações de coerência. De vez em quando havia uns erros de sistema (a mítica mensagem com a bomba) mas poucas vezes era alguma coisa grave. Agora, a política da Apple parece ser a de uniformizar tudo: vêem-se as fotos com o iPhoto, ouve-se música com o iTunes, and so on, tudo na maior coerência estética possível. O facto de que cada vez que ligo a máquina fotográfica ao computador tenha que esperar que o iPhoto carregue não importa; o facto de que o iPhoto seja lentíssimo também não importa – o que importa é que é tudo esteta ao limite da insuportabilidade, tudo irritantemente pré-definido por mim. Quando comecei a usar PCs em Itália e me apercebi que para fazer um simples slide show basta abrir a fotografia, sem esperar, foi como uma revelação. Tão simples! Sem programa nenhum! No tal fim-de-semana em Veneza, o mesmo moço acabou por desabafar: “Mas tu não compraste um Mac para ter o computador mais rápido, pois não?” Boa, compramos computadores para serem mais lentos. Os motivos invocados eram então que o sistema era mais estável (o que quer dizer que vai abaixo POUCAS vezes menos que os outros), que não havia vírus (o que quer dizer que não é preciso ter um vulgar anti-vírus) (aliás, também quer dizer que, se não há vírus, é porque ninguém usa os Macs...por muito que queira acreditar que o facto de o sistema operativo ser baseado em Unix o torna difícil de enganar) e que a próxima versão do Archicad vai ser mais rápida no Mac (neste momento é ao contrário). Ora, parece-me pouco, francamente. Eu sou do tempo em que os PCs tinham monitores CGA ou lá o que era que só mostravam 16 cores e com uma resolução de fazer inveja a um Gameboy. Eram chamados, pelos intelectuais abastados que podiam comprar Macs, (como eu) de “cafeteiras”, feitos de peças diferentes e anónimos, enquanto que “nós” tínhamos uma máquina com verdadeira personalidade. Esses tempos já lá vão, e ainda bem, porque mais pessoas podem ter um computador decente. A verdadeira fregatura, no entanto, fica para nós, arquitectos utilizadores de Macintosh. Porque “eles” podem escolher, enquanto que nós não – temos que nos conformar com programas de CAD terceiro-mundistas, como se usa em Londres porque os bons são caros demais. E aqui passamos ao próximo ponto:
3 • Archicad vs Autocad • Também sou do tempo em que um engenheiro veio lá a casa, estivemos a mostrar-lhe o Archicad no Mac e no fim ele disse “Isso é porreiro, mas acho que mesmo assim os outros são mais científicos.” HAHAHA grande labrego dissemos nós quando se foi embora. Pois, também são tempos que não voltam. Tudo o que o Archicad faz, o Autocad faz também, mas em metade do tempo. Mais uma vez, foi preciso vir para Itália para me dar conta de como era estúpido fazer desenhos em 2D no Archicad, e de como era rígido e limitativo no 3D. Basicamente, o Archicad é um programa antipático – parte do princípio que o utilizador não é muito inteligente e então não o deixa fazer muitas coisas. Isso não é simpático. E quanto a mim é também um princípio fascizante e totalitário; porque é que não posso fazer o projecto como me apetece, sem usar ângulos, materiais e objectos que alguém pré-definiu por mim? (essas coisas irritam-me profundamente).
O Autocad, pelo contrário, pode ter imensos defeitos (parece uma manta de retalhos, deselegante, com milhares de ícones e opçõezinhas e comandos que ao princípio não se sabe muito bem para que servem) mas basta um mês e já se é mais produtivo do que com qualquer outro – e com muito mais possibilidades de ter liberdade criativa. E não está disponível para Macintosh.
Um computador é uma ferramenta, como um martelo. Quando preciso de pregar dez mil pregos procuro comprar o martelo mais eficiente, não o mais bonito.
Sendo assim, anuncio que assim que me derem um salário decente vou chutar o Mac (perdoa-me!) para um canto escuro e comprar um PC. Pode ser que quando isso aconteça a história já seja outra.
4 de abril de 2005
Os computadores e a arquitectura
posto pelo Alexandre às 18:16
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1 comentário:
Afinal a história já é outra! haha...
Gostei do texto, eu penso várias vezes nesses assuntos. A problemática Archi/Auto, não sei mexer em Autocad e na mh escola só ensinam Archicad, lá vai ter de ser.
Quanto ao Mac vs Pc, nos últimos tempos tenho pensado bastante nisso porque preciso de um portátil que seja suficientemente bom e que aguente até ao final do curso e mais uns anos. Mas lá está, a história já é outra... Os Mac's já têm processadores Intel e já dá para correr Autocad e ter vários sistemas operativos (Windows, linux, leopard...) Enfim... Não sei mesmo o que escolher! Ah... e tb estou fartíssima de fazer entregas à mão... Enfim, já é o 4º ano com a T de um lado e a grafite do outro.
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